RESENHA CRÍTICA

Projeto de extensão “Práticas Formativas para Escola e Comunidade” e a formação do psicólogo à luz das Diretrizes Curriculares Nacionais e dos marcos internacionais de Direitos Humanos

A formação do psicólogo, especialmente após a atualização das Diretrizes Curriculares Nacionais estabelecidas pela Resolução CNE/CES nº 1/2023, passou a exigir uma postura ainda mais comprometida com a realidade social brasileira, com a promoção da dignidade humana e com a compreensão dos fenômenos psicológicos em sua determinação histórica, social e cultural. Nesse contexto, o projeto de extensão “Práticas Formativas para Escola e Comunidade”, embora vinculado diretamente ao curso de Pedagogia, apresenta contribuições relevantes para a reflexão sobre a formação em Psicologia, sobretudo por dialogar com princípios estruturantes da atuação psicológica contemporânea.

Ao estabelecer uma relação direta entre universidade e comunidade escolar, o projeto evidencia uma dimensão fundamental da formação do psicólogo: a necessidade de compreender os processos subjetivos não como fenômenos isolados, mas como expressões que emergem das relações sociais, culturais e institucionais. Essa aproximação com o território escolar amplia a compreensão sobre os contextos em que crianças e adolescentes constroem suas experiências subjetivas, permitindo reconhecer que a atuação psicológica exige leitura crítica da realidade e compromisso com a transformação social.

As Diretrizes Curriculares Nacionais da Psicologia indicam que a formação do psicólogo deve estar orientada pela promoção da saúde integral, pelo respeito à diversidade e pela defesa dos direitos humanos. Nesse sentido, a proposta do projeto de extensão dialoga diretamente com esses princípios ao desenvolver ações voltadas aos Temas Contemporâneos Transversais, à diversidade étnico-racial e à construção de práticas educativas comprometidas com a cidadania. Ainda que tais ações estejam inseridas no campo pedagógico, seus efeitos atravessam diretamente o campo da Psicologia, especialmente no que diz respeito à compreensão dos processos de desenvolvimento humano em contextos escolares marcados por desigualdades sociais.

A presença da escola pública como espaço de atuação extensionista fortalece a compreensão de que a formação do psicólogo precisa considerar os contextos institucionais como territórios privilegiados de análise e intervenção. A escola não pode ser entendida apenas como espaço de aprendizagem formal, mas como ambiente onde se expressam conflitos sociais, processos identitários, dinâmicas de exclusão e possibilidades de construção de vínculos. Dessa forma, experiências extensionistas como esta contribuem para ampliar o repertório formativo necessário ao exercício profissional comprometido com a realidade brasileira.

Outro aspecto relevante do projeto refere-se à articulação com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da Organização das Nações Unidas, especialmente aqueles relacionados à saúde e bem-estar, à educação de qualidade, à redução das desigualdades e à promoção de instituições mais justas e inclusivas. Esses marcos internacionais reforçam a compreensão de que a Psicologia, enquanto ciência e profissão, possui responsabilidade social na promoção de condições que favoreçam o desenvolvimento humano em sua integralidade.

Ao considerar a Declaração Universal dos Direitos Humanos como referência ética para a construção das práticas extensionistas, o projeto contribui para reafirmar um dos fundamentos centrais da formação do psicólogo: o compromisso com a defesa da dignidade humana. A incorporação de discussões sobre diversidade étnico-racial e direitos humanos nas ações desenvolvidas junto à comunidade escolar evidencia a importância de formar profissionais capazes de reconhecer as múltiplas dimensões que constituem os sujeitos e suas trajetórias.

No que se refere às estratégias metodológicas utilizadas, observa-se a presença de metodologias ativas, como aprendizagem baseada em problemas, círculos de leitura e produção de atividades coletivas voltadas à reflexão crítica. Essas estratégias dialogam diretamente com as Diretrizes Curriculares Nacionais da Psicologia ao favorecerem processos formativos que superam a lógica da transmissão passiva de conteúdos e estimulam a participação ativa dos estudantes na construção do conhecimento.

A formação do psicólogo exige, cada vez mais, o desenvolvimento de competências que envolvem análise crítica da realidade social, escuta qualificada, sensibilidade ética e capacidade de atuação interdisciplinar. Nesse sentido, experiências extensionistas que promovem contato com contextos educativos reais contribuem significativamente para a construção dessas competências, pois permitem compreender como os processos psicológicos se articulam às condições concretas de vida da população.

Outro elemento relevante refere-se à contribuição do projeto para o fortalecimento de práticas educativas comprometidas com o enfrentamento das desigualdades sociais. Ainda que o projeto esteja inserido no curso de Pedagogia, suas ações dialogam diretamente com demandas historicamente presentes no campo da Psicologia, especialmente no que se refere à promoção de contextos institucionais mais inclusivos e ao reconhecimento da diversidade como dimensão constitutiva da experiência humana.

A formação do psicólogo, conforme estabelecem as Diretrizes Curriculares Nacionais, deve possibilitar o desenvolvimento de uma postura investigativa e reflexiva diante das demandas sociais. Nesse sentido, a participação em atividades extensionistas favorece a construção de uma compreensão ampliada sobre os desafios contemporâneos relacionados à infância, à adolescência, à educação e à garantia de direitos. Trata-se de um movimento formativo que fortalece a articulação entre teoria e prática e contribui para consolidar uma atuação profissional comprometida com a realidade social.

Outro ponto importante refere-se à contribuição indireta do projeto para a construção de uma cultura de paz e respeito às diferenças. As resoluções internacionais relacionadas à promoção dos direitos humanos, especialmente aquelas voltadas à proteção de crianças e adolescentes e à valorização da diversidade, indicam a necessidade de fortalecer práticas institucionais que promovam ambientes seguros e inclusivos. Nesse sentido, iniciativas extensionistas que atuam no espaço escolar contribuem para a consolidação de práticas sociais alinhadas a esses princípios.

Apesar de sua relevância formativa, é importante reconhecer que projetos de extensão que trabalham com Temas Contemporâneos Transversais enfrentam desafios relacionados à continuidade das ações, à articulação institucional e à garantia de condições adequadas para o desenvolvimento das atividades. A formação do psicólogo exige experiências formativas consistentes e permanentes, capazes de sustentar processos de reflexão crítica ao longo da trajetória acadêmica.

Além disso, a complexidade das demandas sociais presentes no contexto escolar evidencia a necessidade de que as instituições de ensino superior assegurem condições estruturais para que experiências extensionistas possam contribuir efetivamente para a formação profissional. A consolidação de práticas extensionistas como eixo estruturante da formação acadêmica representa um avanço importante na direção de uma Psicologia comprometida com as necessidades da população.

Diante dessas considerações, é possível compreender que o projeto “Práticas Formativas para Escola e Comunidade” constitui uma experiência relevante para a reflexão sobre a formação do psicólogo, ainda que esteja vinculado diretamente ao curso de Pedagogia. Suas ações evidenciam a importância da articulação entre universidade e comunidade como estratégia formativa capaz de ampliar a compreensão sobre os contextos sociais em que se desenvolvem os processos psicológicos.

Assim, ao dialogar com os princípios estabelecidos pelas Diretrizes Curriculares Nacionais da Psicologia e com os marcos internacionais de promoção dos direitos humanos, o projeto contribui para fortalecer uma concepção de formação profissional orientada pela responsabilidade social, pela defesa da dignidade humana e pelo compromisso com a construção de uma sociedade mais justa e democrática.

REFERÊNCIAS

BRASIL. Conselho Nacional de Educação. Câmara de Educação Superior. Resolução CNE/CES nº 1, de 11 de outubro de 2023. Institui as Diretrizes Curriculares Nacionais do curso de graduação em Psicologia. Diário Oficial da União: seção 1, Brasília, DF, 2023.

ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS (ONU). Declaração Universal dos Direitos Humanos. Paris: ONU, 1948.

ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS (ONU). Transformando nosso mundo: a Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável. Nova York: ONU, 2015.

BRASIL. Ministério da Educação. Temas Contemporâneos Transversais na BNCC: contexto histórico e pressupostos pedagógicos. Brasília: MEC, 2019.

Deixe sua opinião aqui

Seu endereço de e-mail não será publicado.